Imagem de radar do satélite Sentinel-1 mostrando o desprendimento do gigantesco iceberg na Groenlândia. (crédito: dados Copernicus Sentinel modificados, processados pela ESA)
O episódio de desprendimento massivo foi registrado pelo satélite europeu Sentinel-1, da missão Copernicus, operada pela Agência Espacial Europeia (ESA).
Segundo comunicado oficial da ESA, trata-se da maior perda de gelo flutuante da Geleira Petermann desde 2012, e do evento de desprendimento mais significativo já registrado no Ártico desde 2020. Imagens de radar captadas já mostravam uma deterioração acentuada ao longo da linha central da língua de gelo; um dia depois, o bloco já havia se separado por completo do lado leste da geleira. Esse monitoramento avançado de mudanças geográficas por satélites assemelha-se às tecnologias que a agência espacial usou ao detalhar a matéria sobre como a sonda LRO fotografou a cratera do impacto do foguete Falcon 9 na superfície da Lua.
O acompanhamento do episódio é fruto de um projeto de pesquisa internacional que monitora a Geleira Petermann desde 2019, reunindo cientistas da Universidade de Ottawa, no Canadá, das universidades britânicas de Stirling, Lancaster e Leeds, além do Serviço de Gelo do Canadá, vinculado ao órgão ambiental federal Environment and Climate Change Canada. O trabalho conta com financiamento parcial do projeto ARCTEX, ligado ao programa FutureEO da própria ESA.
Como o satélite acompanhou a ruptura antes mesmo de ela acontecer
O Sentinel-1 carrega um radar de abertura sintética, o que permite à ESA observar a superfície da Terra de dia e de noite e mesmo sob cobertura de nuvens — uma característica especialmente útil para monitorar geleiras remotas do Ártico, onde a observação óptica tradicional costuma ser limitada por longos períodos de escuridão ou mau tempo.
Segundo a ESA, imagens de radar obtidas já haviam revelado deformações e fraturas na língua de gelo, mostrando em detalhe mudanças que se desenvolveram meses antes do desprendimento final. Essas medições de altíssima precisão só foram possíveis graças a uma fase específica de operação conjunta entre os satélites Sentinel-1C e Sentinel-1D, que permitiu capturar imagens de radar com apenas um dia de intervalo entre elas — uma frequência que possibilitou medir com detalhe a propagação das fraturas na plataforma de gelo e o movimento da superfície da língua de gelo influenciado pelas marés oceânicas.
Em depoimento à ESA, Molly Hammond, doutoranda da Universidade de Leeds responsável por processar os dados do Sentinel-1, disse que as mudanças observadas na Geleira Petermann ocorreram de forma muito rápida nos momentos que antecederam o desprendimento, o que tornou especialmente interessante acompanhar a propagação das rachaduras por interferometria quase em tempo real. Essa precisão de comandos de telemetria a distância remete às tecnologias que a agência de aviação usou no artigo sobre como a NASA estendeu a vida útil da Voyager 2 no espaço interestelar com uma manobra de energia.
Um evento raro, mas não inédito
Geleiras e calotas de gelo na Groenlândia sofrem com taxas recordes de derretimento devido à atividade climática recente. (crédito: Unsplash / CC0)
A Geleira Petermann tem um histórico bem documentado de grandes desprendimentos, incluindo a formação de extensas ilhas de gelo em 2008, 2010 e 2012. Desde então, porém, sua língua de gelo flutuante havia permanecido relativamente estável, apesar de alguns desprendimentos menores ao longo dos anos seguintes.
Segundo Adam Garbo, doutorando da Universidade de Ottawa, a Geleira Petermann é, há muito tempo, uma das maiores línguas de gelo remanescentes da Groenlândia, e a equipe já antecipava essa ruptura havia anos — para ele, ver o evento finalmente acontecer é um lembrete poderoso de quão rapidamente esses sistemas podem mudar de forma radical.
O episódio também não deve ser o último grande evento na região, segundo a própria ESA: fraturas já existentes continuam se propagando ao longo da língua de gelo flutuante, e dois novos blocos de gelo, com áreas estimadas em aproximadamente 97 e 87 quilômetros quadrados, podem se desprender no futuro. Anna Crawford, pesquisadora da Universidade de Stirling, destacou que, embora icebergs tabulares grandes sejam relativamente comuns no Oceano Antártico, ilhas de gelo do porte da que se formou na Groenlândia são muito mais raras no Ártico — o que torna esse desprendimento uma oportunidade única de estudo internacional.
Por que isso importa
Satélites de órbita polar de alta sensibilidade rastreiam fraturas no gelo mesmo através de densas nuvens ou escuridão polar. (crédito: Unsplash / CC0)
Do ponto de vista científico, episódios desse tipo funcionam como um laboratório natural para entender como grandes massas de gelo do Ártico se comportam ao longo do tempo — como se deslocam, como se deterioram e, eventualmente, como se fragmentam em pedaços menores. Segundo Anna Crawford, o conhecimento obtido com o estudo de ilhas de gelo árticas pode ser transferido para outras regiões polares, ajudando a entender como o desprendimento e a deterioração desses blocos afetam a dinâmica das geleiras, a elevação do nível do mar e o ambiente oceânico como um todo.
O episódio também tem implicações práticas mais imediatas para a navegação e as operações no Ártico. Segundo a ESA, o órgão ambiental canadense Environment and Climate Change Canada já está monitorando a trajetória do novo iceberg e avaliando riscos potenciais para rotas de navegação e infraestrutura de transporte na região norte.
Massas de gelo desse tamanho podem permanecer no oceano por anos, se fragmentando gradualmente em pedaços cada vez menores e mais difíceis de detectar e rastrear — um desafio logístico real para embarcações que operam nessas águas frias.
Para a compreensão mais ampla das mudanças no Ártico, o caso reforça o valor de missões de observação da Terra com alta frequência de revisita, como o Sentinel-1: foi justamente a capacidade de captar imagens de radar com apenas um dia de intervalo que permitiu à equipe de pesquisa acompanhar a propagação das fraturas quase em tempo real, em vez de apenas constatar o resultado final de recuo do gelo.
Limitações e o que ainda está em aberto
A ESA e os pesquisadores envolvidos são explícitos ao afirmar que os dois novos blocos de gelo previstos — de aproximadamente 97 e 87 quilômetros quadrados — ainda não têm data definida para se desprender: dependem da continuidade da propagação de fraturas já existentes na língua de gelo, um processo que pode se estender por meses ou anos de análise de campo.
Também não há, até o momento, uma estimativa pública sobre quanto tempo o iceberg recém-formado do tamanho de Manhattan deve levar para se fragmentar por completo ou sobre o alcance exato de seu efeito sobre as rotas de transporte marítimo e navegação comercial.
O que vem a seguir
A equipe de pesquisa internacional afirma que vai continuar observando tanto a Geleira Petermann quanto o iceberg recém-formado por meio de imagens de satélite, observações aéreas e dados de rastreamento de longo prazo, acompanhando seu movimento e fragmentação ao longo do oceano.
Essas medições devem ajudar a entender melhor o comportamento de grandes ilhas de gelo árticas e os processos que continuam moldando a evolução da própria Geleira Petermann — incluindo se, e quando, os dois blocos adicionais previstos pelos cientistas vão de fato se desprender nos próximos meses.
Fontes:
• European Space Agency (ESA) — "Sentinel-1 captures major ice loss from Greenland glacier" — esa.int/sentinel-1-greenland-ice-loss
• ScienceDaily (University of Ottawa) — "Manhattan-sized ice island breaks off Greenland's Petermann Glacier" — sciencedaily.com/greenland-glacier-ice-island
• Phys.org — "Greenland glacier break creates new ice island" — phys.org/greenland-glacier-break-ice-island
• Space.com — "Satellite sees Greenland's most significant floating ice loss" — space.com/greenland-significant-ice-loss
• Gizmodo — "A Massive Iceberg Broke off Greenland. New Images Show What Led up to It" — gizmodo.com/massive-iceberg-broke-off-greenland