Conceito artístico da Voyager 2 operando no espaço interestelar distante. (crédito: NASA/JPL-Caltech / Postimages)
Sem a intervenção, a equipe teria sido forçada a desligar outro instrumento da Voyager 2 ainda antes do fim de 2026. Com a economia de energia conseguida, a NASA agora espera manter os três instrumentos restantes funcionando por, no mínimo, mais um ano.
O caso chama atenção não apenas pelo feito técnico, mas pelo contexto: qualquer ajuste na Voyager 2 precisa ser planejado com meses de antecedência, testado remotamente e executado sem qualquer possibilidade de reparo físico caso algo dê errado — a sonda está a bilhões de quilômetros da Terra, muito além da órbita de Netuno. Esse tipo de desafio de rádio remete às manobras que detalhamos em nosso artigo sobre como o robô LINK foi lançado para tentar salvar o telescópio Swift em queda livre.
Por que a energia da Voyager 2 está se esgotando
As duas sondas Voyager, lançadas em 1977, são alimentadas por geradores termoelétricos de radioisótopos (RTGs, na sigla em inglês) — dispositivos que convertem em eletricidade o calor liberado pela decomposição natural de plutônio. Como o plutônio se esgota de forma contínua, segundo a NASA, cada sonda perde cerca de 4 watts de potência por ano.
Dos dez instrumentos científicos originais de cada Voyager, vários já haviam sido desligados ao longo das décadas, alguns porque só eram necessários durante os sobrevoos dos planetas do Sistema Solar, já concluídos há tempos. Desde 2024, porém, a queda contínua de energia obrigou a equipe a desligar mais dois instrumentos científicos em cada uma das sondas — restando três instrumentos ativos em cada Voyager antes da manobra "Big Bang".
O que foi, na prática, a manobra "Big Bang"
As antenas da Deep Space Network da NASA levam quase 20 horas para enviar um sinal de rádio às Voyager. (crédito: Unsplash / CC0)
Segundo a NASA, a operação consistiu em desligar simultaneamente um conjunto de dispositivos elétricos da sonda e substituí-los por alternativas que consomem menos energia — tudo isso enquanto se garantia que a Voyager 2 permanecesse aquecida o suficiente para continuar operando, em um ambiente onde a temperatura do espaço interestelar se aproxima do zero absoluto.
O nome "Big Bang" faz referência ao caráter simultâneo da troca, e não a uma mudança gradual, feita dispositivo por dispositivo. Segundo reportagem da revista Scientific American, a equipe testou a estratégia em etapas: um teste de energia e um teste térmico foram concluídos entre maio e junho, e a manobra propriamente dita ocorreu em julho, com o processo inteiro finalizado ainda naquele mês — antes, portanto, do anúncio oficial da NASA em agosto.
Um dos fatores que tornam esse tipo de operação particularmente delicada é o atraso na comunicação. Um sinal de rádio enviado da Terra até a Voyager 2 leva cerca de 19 horas e meia para chegar, e o mesmo tempo é necessário para a resposta retornar — o que significa que qualquer confirmação de que o procedimento funcionou como esperado só chega à equipe da missão quase 40 horas depois do envio do comando.
O próximo desafio: repetir a manobra na Voyager 1
A NASA já confirmou que pretende realizar uma manobra equivalente na Voyager 1 nos próximos meses. A tarefa deve ser ainda mais delicada: por estar mais distante da Terra que sua sonda-irmã, a Voyager 1 tem um atraso de comunicação superior a 45 horas em cada ciclo de ida e volta de comando, o que reduz a margem de erro da equipe de engenharia.
Em abril de 2026, a NASA já havia desligado um instrumento da Voyager 1 — o de partículas carregadas de baixa energia — como forma de economizar energia por cerca de um ano, tempo estimado para que a manobra "Big Bang" fosse primeiro testada e validada na Voyager 2, antes de ser aplicada também à sonda mais distante.
Em declaração à CNN, o gerente da missão Voyager no JPL, Kareem Badaruddin, descreveu o resultado como fruto de um ano inteiro de trabalho da equipe, afirmando que a extensão da vida útil e do retorno científico das sondas trouxe uma sensação de realização ao grupo.
Por que isso importa
As Voyager coletam dados químicos insubstituíveis sobre o meio interestelar e o fim da influência do Sol. (crédito: Unsplash / CC0)
A Voyager 1 e a Voyager 2 continuam sendo, até hoje, os únicos objetos feitos pelo ser humano a operar continuamente no espaço interestelar — a região além da chamada heliosfera, a "bolha" de partículas carregadas geradas pelo Sol que envolve todo o Sistema Solar. Não existe, atualmente, nenhuma outra missão financiada ou planejada capaz de repetir esse tipo de medição direta em curto ou médio prazo, o que torna cada instrumento ainda ativo nas duas sondas um recurso científico considerado insubstituível. Essa busca por dados químicos fora do Sistema Solar assemelha-se às descobertas do cometa interestelar 3I/ATLAS monitorado por James Webb e Hubble.
Cada ano adicional de operação significa mais dados sobre um ambiente que a ciência ainda entende de forma limitada — incluindo como o vento solar interage com o meio interestelar e como partículas de origem cósmica se comportam fora da influência direta do Sol. Esses dados são fundamentais para entender fenômenos que também estudamos em nosso artigo sobre a captura de um buraco negro errante destruindo uma estrela de forma violenta.
Já para a engenharia espacial de forma mais ampla, o caso reforça um ponto frequentemente citado por especialistas do setor: parte da longevidade de missões antigas depende menos de hardware novo e mais da capacidade da equipe de operação de repensar, à distância e décadas depois do lançamento, como usar os recursos que já existem a bordo. Esses lançamentos bem-sucedidos em termos operacionais contrastam com as grandes disputas comerciais corporativas que analisamos sobre o contrato militar bilionário da SpaceX de Elon Musk com a Força Espacial dos EUA.
Limites da manobra e o que ainda está em aberto
A própria NASA é clara ao afirmar que a solução não é permanente: trata-se de uma economia de energia em uma espaçonave cuja eletricidade disponível continua, de forma inevitável, a diminuir ano após ano por causa da natureza física do decaimento radioativo do plutônio. A "Big Bang" adia o problema, mas não o resolve de forma definitiva — outros desligamentos de instrumentos ao longo dos próximos anos continuam sendo esperados pela própria equipe da missão.
Também não há, até o momento, confirmação pública de uma data específica para a realização da manobra equivalente na Voyager 1, além da indicação de que deve ocorrer "nos próximos meses", segundo o comunicado oficial da NASA.
O que vem a seguir
Com os três instrumentos científicos restantes da Voyager 2 garantidos por, no mínimo, mais um ano, o próximo marco a ser acompanhado é a aplicação da manobra "Big Bang" à Voyager 1. Caso o procedimento seja bem-sucedido também na sonda mais distante, a NASA deve conseguir estender de forma semelhante a coleta de dados científicos das duas espaçonaves, mantendo ativa a única fonte direta de informações sobre o espaço interestelar disponível para a humanidade até o momento.
Fontes:
• NASA Science — "NASA Engineers Help Prolong Voyager 2's Science Mission" — science.nasa.gov/voyager-2-mission-prolonged
• CNN — "'Big Bang' fix boosts Voyager 2's mission in interstellar space" — cnn.com/voyager-2-big-bang-fix
• Scientific American — "NASA's Voyager 2 survives daring 'big bang' maneuver" — scientificamerican.com/voyager-2-survives
• NASA Science — "NASA Shuts Off Instrument on Voyager 1 to Keep Spacecraft Operating" — science.nasa.gov/voyager-1-instrument-shutdown