Um telescópio da NASA em órbita há mais de duas décadas está caindo em direção à Terra mais rápido do que o previsto — e, pela primeira vez, uma empresa privada foi contratada para tentar resgatá-lo no espaço. Lançada na madrugada de sexta-feira, 3 de julho de 2026, a missão usa um robô batizado de LINK, construído em menos de um ano, e marca também o último voo da história de um foguete lendário.
O telescópio que está caindo
Telescópio Neil Gehrels Swift Observatory em órbita. (crédito: NASA/Goddard Space Flight Center/Chris Smith)
O alvo do resgate é o
Observatório Swift, lançado em 2004 e batizado oficialmente de
Neil Gehrels Swift Observatory. Por mais de duas décadas, o telescópio funcionou como uma espécie de "primeiro socorrista" cósmico da NASA: consegue apontar para explosões de raios gama, estrelas em colapso e o brilho residual de colisões entre estrelas de nêutrons em questão de minutos, enquanto um telescópio como o Hubble levaria de um a dois dias para reagir ao mesmo evento.
Ao longo de sua operação, o Swift ajudou a mapear com detalhe inédito eventos como o rastro ultravioleta da galáxia de Andrômeda e uma sequência enorme de explosões cósmicas de curta duração, consolidando-se como uma das ferramentas mais versáteis do parque de telescópios da NASA — capaz de observar o mesmo alvo em luz visível, ultravioleta, raios X e raios gama.
O problema é que o Swift nunca teve um sistema de propulsão próprio para corrigir sua órbita. Uma sequência recente de tempestades solares "inchou" a atmosfera superior da Terra, aumentando o atrito sobre satélites em órbita baixa — e o Swift começou a perder altitude muito mais rápido do que o esperado. Sem intervenção, a chance de uma reentrada descontrolada na atmosfera chegava a
50% até meados de 2026 e 90% até o fim do ano.
Para ganhar tempo, a NASA desligou os instrumentos científicos do Swift em fevereiro de 2026, interrompendo as observações, e a equipe de operações da Penn State passou a posicionar o satélite sempre na configuração mais aerodinâmica possível. Ainda assim, o telescópio precisa se manter acima de cerca de 300 km de altitude para que o resgate tenha alguma chance de dar certo.
Conheça o LINK, o robô que vai tentar o resgate
Robô LINK em testes de vibração antes de ser acoplado ao foguete. (crédito: NASA/Scott Wiessinger)
Em setembro de 2025, a NASA fechou um contrato de
US$ 30 milhões com a startup americana
Katalyst Space Technologies, de Flagstaff, no Arizona, superando propostas concorrentes de outras empresas do setor. O desafio: projetar, construir, testar e lançar uma espaçonave capaz de capturar o Swift em menos de um ano — um prazo considerado extremamente curto para esse tipo de projeto aeroespacial.
O resultado se chama
LINK: uma espaçonave de cerca de 400 kg e 1,5 metro de altura, equipada com três braços robóticos, painéis solares de quase 6 metros de envergadura e três motores iônicos movidos a xenônio. Como o Swift nunca foi projetado para receber manutenção — não tem nenhum encaixe ou ponto de fixação pensado para isso —, o LINK vai precisar prender seus braços numa estrutura secundária do próprio satélite, originalmente usada apenas para fixá-lo durante o transporte antes do lançamento em 2004.
Além dos motores iônicos, o LINK conta com 16 pequenos propulsores auxiliares só para ajustar sua orientação durante as manobras de aproximação — um detalhe que dá ideia da precisão exigida numa operação em que não existe margem para erro. O plano de voo é longo: depois de algumas semanas testando seus próprios sistemas em órbita, o LINK vai perseguir o Swift por cerca de um mês até alcançá-lo. Antes de qualquer contato, a espaçonave vai passar de duas a três semanas apenas observando o telescópio à distância, mapeando o ponto mais seguro para o encaixe. Só depois disso vem a captura e, então, cerca de dois meses de pequenos impulsos com os motores iônicos para elevar o Swift da altitude atual até os 600 km considerados seguros. Ao todo, a missão deve levar entre
10 e 12 semanas.
O último voo do lendário foguete Pegasus
Foguete Pegasus XL acoplado à parte inferior do avião Stargazer. (crédito: Northrop Grumman)
O LINK subiu ao espaço a bordo de um foguete
Pegasus XL, da Northrop Grumman — e essa foi a última missão da história do programa, que somou 45 lançamentos desde sua estreia em 1990. Diferente da maioria dos foguetes, o Pegasus não decola de uma plataforma: ele é transportado até cerca de 12 mil metros de altitude preso à barriga do
Stargazer, um avião L-1011 modificado, e só então é solto e liga seus próprios motores em pleno ar.
Essa flexibilidade foi decisiva para a escolha do foguete: o Pegasus conseguia decolar de uma base isolada no Atol de Kwajalein, nas Ilhas Marshall, no meio do Pacífico Sul, alinhando-se diretamente com a órbita baixa e pouco inclinada do Swift — algo mais difícil de conseguir a partir dos grandes centros de lançamento tradicionais.
O lançamento, previsto inicialmente para o fim de junho, foi adiado algumas vezes por mau tempo e por uma falha de software no sistema de navegação, identificada e corrigida entre as tentativas. Finalmente, às
4h36 (horário de Brasília) do dia 3 de julho, o Pegasus foi solto do Stargazer e enviou o LINK à órbita com sucesso.
Por que a NASA está apostando tanto nisso
Do ponto de vista de custos, a conta é simples: reformar a órbita do Swift sai muito mais barato do que construir um telescópio novo do zero, e a NASA afirma não ter orçamento disponível para substituir o observatório caso ele se perca. Mas o valor da missão vai além de salvar um único satélite.
Se der certo, essa será a primeira vez que uma empresa privada consegue capturar e reposicionar um satélite do governo americano que nunca foi projetado para receber manutenção em órbita — uma prova de conceito para toda uma futura indústria de "oficinas espaciais". O próximo candidato a esse tipo de resgate já está identificado: o
Telescópio Espacial Hubble, com 36 anos de operação, sofre do mesmo problema de perda de altitude por causa da atividade solar recente, e pode receber um reforço parecido já em 2028.
A Katalyst enxerga o Swift como a porta de entrada para um negócio maior: a empresa já projeta versões futuras de suas espaçonaves capazes de alcançar órbitas de até 36 mil km de altitude, reabastecendo, reparando e reposicionando satélites de todo tipo. Vale registrar também o lado mais sensível dessa tecnologia — a mesma capacidade de "agarrar" satélites alheios também pode, em tese, ser usada por potências espaciais como Estados Unidos, China e Rússia como ferramenta de conflito no espaço, desativando satélites de rivais. A China já demonstrou uma capacidade parecida em 2022, ao rebocar um satélite inativo para uma órbita mais alta.
O que vem a seguir
Horas depois do lançamento, equipes da Katalyst já confirmaram o primeiro contato com o LINK em órbita, com os painéis solares abertos e os sistemas de energia funcionando — o primeiro grande obstáculo superado. Agora começam as semanas de testes antes da longa perseguição até o Swift.
Segundo as estimativas mais recentes, o telescópio atingiria o "ponto sem volta" para uma reentrada descontrolada por volta de
outubro de 2026, o que torna essa uma corrida contra o tempo bastante literal. Se tudo correr bem, o Swift pode voltar a operar plenamente cerca de um mês após o fim do reforço orbital — e ganhar, segundo a NASA, mais uma década de vida útil observando os eventos mais violentos do universo.
Para a Katalyst, o resultado da missão — bem-sucedido ou não — já deve virar case de estudo. A empresa planeja lançar já no próximo ano uma versão maior de sua espaçonave de resgate, capaz de alcançar altitudes bem superiores à do Swift, e aposta que o custo de cada missão de resgate como essa deve cair para a casa de poucos milhões de dólares nos próximos anos, à medida que a tecnologia amadurece.
Fontes: NASA Science, NASA.gov, Axios, CBS News, Space.com, TechRepublic.