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Geopolítica da IA: China cria a WAICO com o Brasil como membro fundador para disputar as regras com os EUA

Por Douglas Marques
19/07/2026
7 min

A disputa entre Estados Unidos e China pela liderança da inteligência artificial ganhou um novo capítulo: a criação de uma instituição internacional em Xangai para escrever as regras do jogo. A China formalizou a WAICO, uma coalizão de 29 países que inclui o Brasil como membro fundador, marcando uma fragmentação real na governança global da tecnologia.

Vista panorâmica do skyline de Pudong, em Xangai, sede permanente da nova organização internacional de IA.

Vista panorâmica do skyline de Pudong, em Xangai, sede permanente da nova organização internacional de IA. (crédito: Postimages)



A disputa entre Estados Unidos e China pela liderança da inteligência artificial ganhou, nesta semana, um capítulo que vai além de chips e modelos: a criação de uma instituição internacional dedicada a escrever as regras do jogo. Na quinta-feira, 16 de julho, a China formalizou em Xangai a Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial, conhecida pela sigla em inglês WAICO — uma coalizão de 29 países que inclui o Brasil como membro fundador.

O que é a WAICO



A nova organização terá sede permanente em Xangai e vai funcionar como uma entidade intergovernamental independente. Além do Brasil, assinaram o acordo constitutivo países como Indonésia, Malásia, África do Sul, Senegal, Rússia, Paquistão, Belarus, Sérvia, Cuba, Venezuela, Cazaquistão e Laos — nenhuma das principais democracias ocidentais aderiu nessa primeira leva.



No dia seguinte à assinatura, o presidente chinês Xi Jinping fez sua primeira participação presencial na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, a WAIC, realizada em Xangai desde 2018. Até então, o evento era conduzido principalmente por integrantes do governo, dirigentes empresariais e pesquisadores — a presença pessoal de Xi sinalizou que a IA passou a ocupar um lugar central na estratégia econômica, diplomática e de segurança nacional do país.

A mensagem por trás do lançamento



No discurso de apresentação, Xi comparou o impacto da inteligência artificial a transformações históricas como a máquina a vapor, a eletricidade e a internet, defendendo sistemas centrados no ser humano, com supervisão, monitoramento e capacidade de resposta a emergências. Ao mesmo tempo, criticou de forma indireta os controles tecnológicos impostos pelos Estados Unidos e seus aliados, argumentando que preocupações de segurança não deveriam impedir outros países de acessar modelos, infraestrutura e conhecimento em IA.



Xi resumiu essa visão afirmando que o desenvolvimento da inteligência artificial não deveria ser a apresentação solo de um único país, mas sim uma cooperação internacional mais ampla. A frase resume bem a estratégia de Pequim: enquanto Washington restringe a exportação de chips avançados e protege seus modelos proprietários, a China se posiciona como fornecedora de sistemas mais abertos, treinamento técnico e infraestrutura acessível para países em desenvolvimento do Sul Global.

O Brasil como membro fundador



Grandes conferências internacionais buscam alinhar os padrões de segurança e governança de algoritmos.

Grandes conferências internacionais buscam alinhar os padrões de segurança e governança de algoritmos. (crédito: Unsplash / CC0)



O governo brasileiro confirmou presença na cerimônia de fundação e assinou o acordo constitutivo. Em nota conjunta, os ministérios das Relações Exteriores, da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos afirmaram que a adesão insere o país nos debates internacionais sobre governança de IA e em mecanismos multilaterais de cooperação tecnológica.



Isso não significa que o Brasil tenha adotado integralmente as posições regulatórias chinesas — Brasília também participa de discussões conduzidas pela ONU, pela OCDE e pelo G20, entre outros fóruns. A adesão à WAICO acontece, aliás, num momento de aprofundamento da cooperação tecnológica entre os dois países: em abril, instituições brasileiras já haviam firmado um acordo com a China voltado ao desenvolvimento de capacidade nacional em IA, incluindo modelos adaptados ao português, tradução, acessibilidade e infraestrutura computacional.



A oportunidade vem acompanhada de um risco relativamente óbvio: o Brasil pode ganhar acesso a modelos mais baratos e programas de capacitação, mas precisa preservar autonomia sobre seus próprios dados, sua infraestrutura crítica e suas decisões regulatórias — evitando trocar uma dependência tecnológica dos Estados Unidos por uma dependência equivalente da China.

Uma disputa que já tinha lado americano



A WAICO não nasce num vácuo: ela surge num momento em que Estados Unidos e China já constroem blocos tecnológicos concorrentes. Washington reuniu 35 países em torno da chamada AI Opportunity Statement, além de promover a iniciativa Pax Silica, voltada à segurança das cadeias de semicondutores, inteligência artificial e minerais críticos. Dos países ligados aos dois projetos, apenas o Cazaquistão aparece hoje nas duas listas — um indício de que o mundo pode estar caminhando para uma fragmentação real da governança global de IA, com países tendo que escolher, na prática, de qual lado ficar.



Vale destacar que a criação da WAICO em si não dá à China poder para impor leis aos países membros — o acordo cria, por enquanto, uma plataforma de coordenação política. Sua influência real vai depender da capacidade de transformar declarações em padrões técnicos, legislações nacionais concretas e posições conjuntas dentro de fóruns como as próprias Nações Unidas.

A distância tecnológica que quase desapareceu



A ofensiva diplomática chinesa não acontece por acaso: ela coincide com uma aproximação real de desempenho entre os modelos dos dois países. O relatório de 2026 do Instituto de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano, da Universidade Stanford, concluiu que a diferença de desempenho entre os melhores sistemas americanos e chineses praticamente desapareceu — em março, o modelo americano líder ainda mantinha uma vantagem de apenas 2,7 pontos percentuais sobre o rival chinês.



Os Estados Unidos continuam à frente em investimento privado: em 2025, empresas americanas investiram US$ 285,9 bilhões em IA, contra US$ 12,4 bilhões registrados oficialmente do lado chinês — embora esse número oficial provavelmente não capture todo o financiamento estatal chinês direcionado ao setor. Em compensação, a China lidera em volume de publicações científicas, patentes registradas e instalação de robôs industriais, além de ter avançado com modelos de parâmetros abertos, que reduzem custos de processamento.



Esse apelo já aparece nos números de uso: segundo dados citados pelo Wall Street Journal, modelos chineses chegaram a responder por cerca de 45% dos tokens processados pela plataforma OpenRouter — um serviço usado por desenvolvedores para comparar preços e acessar centenas de modelos diferentes. É importante relativizar esse número: o OpenRouter não representa todo o mercado de IA, já que boa parte das empresas usa modelos direto pelas interfaces da OpenAI, Anthropic, Google e Microsoft.

O que está realmente em jogo



Vale reforçar: a criação da WAICO não substitui as Nações Unidas, não estabelece uma regulamentação mundial imediata, e não reúne, nessa primeira composição, as principais economias ocidentais. Seu real significado está em outro lugar: na criação de um segundo polo institucional, capaz de disputar, ao lado dos fóruns já liderados por Estados Unidos, União Europeia e G7, a definição do que vai ser considerado seguro, aceitável e legítimo no uso da inteligência artificial nas próximas décadas.



Para países como o Brasil, participar dessa mesa desde o início tem valor estratégico óbvio — nenhum país quer ficar de fora de onde as regras estão sendo escritas. Mas a mesma lógica que torna a WAICO atraente para o Sul Global também é a que gera desconfiança entre analistas: ao oferecer treinamento gratuito, tecnologia meteorológica baseada em IA para dezenas de países e cinco mil vagas de capacitação técnica nos próximos cinco anos, a China constrói influência de longo prazo em regiões que ainda estão montando seus próprios ecossistemas digitais — o que pode, na prática, ampliar o uso de padrões e equipamentos chineses nesses países, mesmo sem qualquer imposição formal.



No fim das contas, a disputa entre as duas potências deixou de girar apenas em torno de qual país constrói o modelo mais poderoso. Ela passou a envolver também quem vai definir os critérios de segurança, a responsabilidade por danos causados por sistemas autônomos e as regras para o uso de IA em atividades militares e governamentais — decisões que devem moldar indústrias e instituições de todo o mundo.




Fontes: Forças Terrestres, Instituto de IA Centrada no Ser Humano da Universidade Stanford, Wall Street Journal.
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Douglas Marques

Jornalista de tecnologia e editor do FuturoAgora.tech. Especializado em traduzir os impactos da inteligência artificial, avanços em física e ciência espacial de forma simples e acessível para o público brasileiro.

Dados do Artigo

✍️ Autor: Douglas Marques
📅 Publicado em: 19/07/2026
🔄 Atualizado em: 04/09/2026
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